CARRO DE BOIS
Dentre às várias atividades que o meu pai exerceu, enquanto trabalhador rural, uma foi a de carreiro. Podemos definir carreiro como sendo a pessoa que conduz o carro de bois, aquele que comanda os bois que puxam o carro. É denominado boi o touro castrado, que, assim, se torna manso e submisso ao trabalho de carga e próprio ao abate. O carro de bois representa uma das mais antigas tradições no transporte de cargas entre as cidades e a zona rural ou desta para as cidades, como era comum no transporte de cereais, animais de médio e pequeno porte, como suínos e galináceos e o famoso combustível da época, a lenha, bem como, entre os centros fornecedores e os consumidores, no transporte de víveres e toda espécie de mercadorias, como tecidos, sal, calçados, etc. O carro de bois merece o nosso respeito, pelo seu papel no desenvolvimento de nossas cidades, embora hoje ele tenha se tornado quase uma figura lendária, só retratada em canções dos profissionais da música popular brasileira ou utilizada como objeto de decoração em jardins de mansões de pessoas que talvez nunca viram um carro de bois na sua verdadeira acepção. Hoje existe um “slogan” de que, se os caminhões pararem, o Brasil pára também. Mas, até muito pouco tempo atrás, era o carro de bois que punha o Brasil em movimento. Ele não podia parar, pois era, sem nenhuma dúvida, o principal fator de desenvolvimento. Diferentemente do que muitos possam pensar, o carro de bois, que se apresenta como uma peça bastante rústica, pode, se bem analisada ser considerada, uma verdadeira obra de engenharia ou de arte, onde a simetria e noções de cálculos são perfeitamente observadas. Embora apresentando conformações e denominações diferentes nas diversas regiões do Brasil, o carro de bois é composto basicamente de três partes: O par de rodas, ou rodeiro, o eixo e a mesa. A matéria-prima básica para a construção do carro de bois são a madeira e o ferro. A principal madeira utilizada na construção de carros de bois é, sem dúvida, o bálsamo, também conhecido como cabriúva, classificada cientificamente como Myrocarpus frondosus, da família das leguminosas-papilonáceas, sendo inigualável, principalmente na construção das rodas, dada a sua maciez, que facilita o trabalho das ferramentas dos profissionais, a sua impermeabilidade, não retendo umidade e a qualidade de fixação dos cravos de ferro, principalmente pelo fato de não possuir elementos oxidantes. Não contando a ferragem, na construção de uma roda, são utilizadas cinco peças, que são: o meão, duas cambotas, ou cambas, e duas arreias. Meão é a peça central da roda, constituindo a maior parte da mesma. É ela que recebe o furo quadrado, denominado mecha, onde é fixado o eixo, por intermédio das espigas e as demais partes das rodas. As cambotas, que se apresentam como duas meias-luas, são fixadas ao meão por intermédio das arreias, as quais se constituem de talas de madeira que se unem, por intermédio de furos abertos no meão e nas meias-luas. As arreias constituem peças internas, não sendo visíveis depois da roda montada. Cada roda se completa com a aplicação do aro de ferro, que é fixado mediante a aplicação de pregos de grandes cabeças chamados cravos, a aplicação de duas peças de ferro, denominadas gatos, fixadas no meão, para evitar rachaduras quando da fixação do eixo. Para maior resistência da roda, é a mesma ornamentada com cravos em toda a sua circunferência, proximamente ao aro de ferro que reveste toda a roda, ao que se denomina rosário, ou agulhamento. No sentido transversal, em linha reta ao centro do furo do eixo, nos encontros do meão e das cambotas, são construídas, em cada roda, duas perfurações de aproximadamente doze centímetros de diâmetro, chamadas ocas, as quais, além de dar uma conformação estética às mesmas, servem para difundir o som do cantar do carro. Bernardino José de Souza, em seu livro Ciclo do Carro de Bois no Brasil, publicado pela Companhia Editora Nacional, assim definiu as ocas: “É de uso em todo o Brasil abrir-se na junção das cambotas ou meças similares com o meão dois orifícios em cada roda, cujo tamanho, forma e denominação diferem de região a região: – de dez a vinte e cinco centímetros; quadrados, circulares, alguns até com recortes estéticos; óculos (não raro, corrompidos em ocas) em Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso, olhos em Sergipe e Bahia, ouvidos na Paraíba. Eles têm a sua utilidade: servem de degraus para a subida dos carreiros nas partes laterais da mesa; na travessia de atoleiros dão saída à boa porção de lama que se junta entre as partes inferiores da mesa e as rodas; ventilam até certa medida as cantadeiras; influem, dizem os carreiros, na modulação da cantiga do carro e concorrem para a sua mais alta ressonância.” Diferentemente das rodas, o eixo é constituído de uma única peça, utilizando apenas duas chavetas em cada cabeça para fixa-lo às rodas. Trata-se de peça volumosa, sendo construídas em suas extremidades as ponteiras perfeitamente de conformidade com os furos do meão, chamadas de espigas, e os recortes de encaixe dos cocões e chumaços, também chamados de cantadeiras, sendo que a do meio é opcional. A mesa é a parte mais complexa do carro de bois e talvez a que mais exige noções de engenharia ou simetria. Seu formato assemelha-se a uma raquete do jogo de tênis. São peças básicas da mesa: o cabeçalho, ou cabeçário, duas chedas, quatro cocões, os chumaços, as arreias, o recabém, o pigarro e a chavelha. O cabeçalho é a maior parte da mesa e constitui-se de uma única peça de madeira, localizada no centro da mesa, desde a parte dianteira onde recebe a chavelha, até o recabém, ou recavém. A conformação da mesa é realizada mediante a junção das laterais, chamadas chedas, que são construídas segundo técnicas especiais de recortes e fixadas na parte anterior ao cabeçalho e posteriormente ao recabém e mais as respectivas areias, que dão sustentação às tábuas do lastro da mesa. O cabeçalho é como se fosse a coluna vertebral da mesa. As chedas, que constituem as partes laterais da mesa, recebem as perfurações das arreias, dos cocões e dos fueiros. Assim, os cocões, que são grandes pinos que recebem o eixo das rodas, são fixados em número de dois em cada cheda. Por sua vez a sua fixação é feita mediante a aplicação de pinos ou tornos, em sua parte superior que evitam que os mesmos caiam. O recabém, que se constitui de uma única peça de madeira na parte traseira da mesa é guarnecida com uma chapa de ferro, para evitar desgastes, também recebe a perfuração para a colocação de dois fueiros e, na sua parte interna, fixada no final da peça do cabeçalho, o argolão de ferro, que é utilizado em casos especiais de descidas de ladeiras acentuadas ou serras, amarrando-se juntas de bois em sentido contrário. Entre os cocões e mediante fixação dos mesmos, são colocados os chumaços, que constituem os mancais, local onde é recebido o eixo do carro. Estas peças, com o tempo, são desgastadas e devem ser lubrificadas constantemente, para evitarem que o carro de bois pegue fogo. A lubrificação, por sua vez, faz com que o carro “cante”. Alguns carros utilizam também um terceiro chumaço, colocado no centro do eixo e que é sustentado no varão do cabeçalho. A chavelha, também conhecida simplesmente por chaveia ou chavea, é uma peça de madeira que é colocada bem na ponta do cabeçalho em um furo construído perpendicularmente e serve para fixar o carro à canga de cabeçalho ou coice. O pigarro também constitui uma peça de madeira fixada logo após a chavelha e serve para receber a tiradeira do cambão dos bois de chavelha. O pigarro serve também para fixar a peça chamada espera, para manter o carro em nível, quando desatrelado dos bois. Normalmente, os carros de bois recebem em cada cheda seis fueiros, dependendo de seu tamanho, além dos dois colocados no recabém. Constituem acessórios, propriamente ditos, do carro de bois, além dos fueiros, que já tivemos oportunidade de mencionar, e que são representados por pedaços de varas de aproximadamente 1,20 m de altura, incluindo a parte que é fixada na cheda, a esteira, geralmente construída de taboca, ou bambu, e o respectivo caniço, que é colocado na parte traseira do carro, quando do transporte de mercadorias a granel, como o milho. A altura da esteira e do caniço corresponde à parte externa dos fueiros, sendo que ela é fixada nestes mediante amarras de couro cru. Além disto, podemos enumerar, como acessórios, a espera e o azeiteiro, que é feito de chifre, onde é armazenado o azeite (óleo de mamona) para lubrificar o eixo. Para o atrelamento dos bois ao veículo, existe toda uma parafernália de acessórios, dos quais são principais as cangas e os cambões. As cangas geralmente são de dois tipos, a chamada de canga de cabeçalho, ou coice, e as demais. A canga de cabeçalho, diferentemente das demais, é mais resistente e pesada e caracterizada pela existência de duas curvas, uma para baixo em relação aos pescoços dos bois e outra para trás, em relação ao cabeçalho do carro. As demais só apresentam a primeira curva. Toda canga, no entanto, possui duas outras pequenas curvas, que são as necessárias ao apoio no cachaço de cada boi. Cada canga recebe, necessariamente, seis furos, sendo dois no centro, onde é colocado o tamoeiro, e os outros, em cada par, nas extremidades da mesma, onde são colocados os canzis. Assim cada canga possui quatro canzis. O tamoeiro é constituído de uma amarra construída de couro cru e serve para fixar a parte anterior do cambão à canga. Os canzis, construídos de madeira, servem para fixar a canga nos pescoços dos bois (cachaço), sendo que na sua parte inferior existe uma presilha construída também de couro cru, denominada broxa. Os cambões são construídos de madeira roliça ou serrada, de boa qualidade, em tamanho um pouco superior ao do comprimento dos bois, e servem para ligar as juntas de bois, depois da do cabeçalho, ou coice, às demais até à junta da guia. Cada cambão é constituído, além do varão de madeira, de uma chavelha na parte anterior, para fixação na canga, por intermédio do tamoeiro e, na parte posterior, por um furo onde é colocada uma amarra de couro cru, chamada de tiradeira, para fixação na parte anterior do cabeçalho, quando se tratar da junta imediatamente seguinte à junta do coice ou à junta anterior, nos demais casos. Em relação aos bois que puxam o carro, chamados simplesmente de boiada, podemos observar denominações bastante particulares e interessantes, a saber: 1 – A boiada, quando cangada, é chamada de fieira; 2 – Dois bois unidos por uma corda entre os chifres são chamados de ajoujados; 3 – Dois bois cangados são chamados de junta; 4 – Os dois bois da frente são chamados de bois de guia; 5 – Os dois bois atrás dos bois de guia são chamados de pés da guia; 6 – Os bois que recebem diretamente o cabeçalho do carro são chamados de bois de cabeçalho, ou coice; 7 – Os bois colocados anteriormente aos bois do coice são chamados de bois de chavelha; 8 – Os bois entre os do pé da guia e os do coice são chamados de bois do meio, neles podendo incluir-se os bois de chavelha. Normalmente, um carro de bois é tracionado com a utilização de quatro juntas destes, podendo, no entanto, ser composto por número bem superior de juntas, dependendo da carga e do percurso da viagem. Quantidades muito grandes de juntas podem causar problemas aos bois do meio, em casos de lombadas ou depressões acentuadas. Os bois normalmente são treinados para as respectivas funções dentro da boiada. Assim, temos os bois de coice, ou cabeçalho, os bois de guia, os bois de chavelha, etc. São chamados de bois de lugar. Geralmente, eles são treinados para “trabalhar” do lado direito ou do lado esquerdo da respectiva junta, sendo que, em determinados casos, alguns se prestam a servir em qualquer lado. Mesmo sendo treinados desde novos, os bois nem sempre se tornam perfeitamente fiéis aos seus desideratos, com apresentação de defeitos tais como: a) Joga canga ou nega canga – dificultando o trabalho do carreiro; b) Dá coice no cambão – coloca o carreiro em risco de machucar-se; c) Encosta-se no cambão – boi malandro não gosta de trabalhar; d) Boi que amua – deita-se e não se levanta; e) Boi de coice – com dificuldade para afastar-se; f) Boi de guia – pode negar a guia: bambear na hora de carrear. Por fim, resta-nos falar um pouco sobre a figura do carreiro e do candeeiro. Carreiro, como já vimos, é o homem encarregado de comandar os bois, no sentido de puxar o carro de bois. Candeeiro é o ajudante que vai à frente dos bois, fazendo com eles trilhem o caminho certo. É o candeeiro o encarregado de abrir as porteiras por onde o carro deva passar. Segundo o Prof. Fausto De Vito, o candeeiro: “tem este nome, porque conduz uma candeia acesa, depois lanterna envidraçada, durante as viagens noturnas, para iluminar os caminhos”. Geralmente esta atividade era exercida por meninos. Na cintura do carreiro não pode faltar um facão, necessário para o preparo de fueiros e canzís a fim de substituir os quebrados durante a viagem. Não pode faltar também a vara de ferrão, constituída de uma haste roliça de madeira, da qual muito se presta a peroba, em cuja ponta é fixado, mediante um encastôo, um ferrão e um chocalho de pequenas argolas. É com ela que o carreiro comanda os bois. O ferrão é utilizado para ferretear os bois, quando estes se mostram aparentemente com “preguiça” de trabalhar ou quando se desviam da direção adotada. Antes de ferretear os bois, o carreiro geralmente faz tremer a vara que produz um barulho em decorrência das argolas do chocalho. Com isto, o boi fica condicionado, sabendo que em seguida poderá vir uma agulhada dolorida, e geralmente nem espera por ela, retornando imediatamente à sua função. Para comandar os bois, que possuem nomes próprios, o carreiro utiliza-se de uma linguagem toda especial, que pode variar de carreiro para carreiro ou de região para região. Nomes muito comuns e bastante sonoros, assim como de prolação demorada, para os bois de guia são Malhado e Rochedo. Assim, quando o carreiro quer manobrar o carro de um lado para o outro, geralmente manda um boi afastar-se e o outro seguir. Digamos que o Malhado, no nosso caso, é o boi de guia da esquerda e o Rochedo o da direita e ele quer fazer uma curva para a direita. Dirá então: “Fasta, Rochedo! – Vem, Maiado!”. Entre as palavras mais utilizadas no carrear, é, sem dúvida, o “Oooaaa!” – que quer dizer parar. Portanto, estando o nosso carro de bois perfeitamente explicado, “Ooooaaaa!” Em relação à capacidade de carga dos carros de bois, a mesma é determinada segundo a quantidade de milho que ele pode carregar, ou seja, 40, 44 ou 50 jacás, também conhecidos por balaios, dependendo em ambos os casos de cada região. Na região do Pontal do Triângulo, um carro de milho equivale, normalmente, a 50 jacás. O jacá de milho, unidade de uma carrada, pega duas mãos; uma mão são 15 atilhos e um atilho são quatro espigas. Assim, fazendo as contas, vamos notar que um carro de milho de 50 jacás corresponde a 6.000 espigas, que, debulhadas, produzem em média cerca de 20 sacos de 60 quilos. Uma carrada de milho pesa em média 1.750 quilos. No transporte de lenha, um carro de bois pega cerca de 7 metros cúbicos. Para proteger-se das chuvas, os carros de bois destinados a transportar mercadorias que não podiam molhar-se, como sal e açúcar, eram cobertos por couros e chamados de carros toldados. Esta providência também era observada quando das viagens destinadas ao transporte de pessoas. Foi de carro de bois toldado que nos mudamos da Fazenda Buracão para Frutal, antes de seguirmos para a Fazenda São Mateus. Também foi de carro de bois toldado que fomos assistir a uma festa em Aparecida de Minas, quando os meus avós maternos moravam lá, e ao casamento da tia Zélia e do tio Joaquim Pacheco, na cidade de Frutal. Este capítulo é dedicado de forma carinhosa à memória do meu amigo Odilon Ribeiro de Paiva, que muito contribuiu para os trabalhos de pesquisa e que, infelizmente, tão cedo faleceu, na noite do dia 6 de setembro de 2.003. O frutalense Antônio Donizete de Oliveira (Cana) compôs em 7 de janeiro de 1980, e nos autorizou a publicar, o seguinte poema:
“JUNTA DE BOIS”
“Minha junta de boi De velha vai morrer ... Foi o progresso que fez Isso acontecer.
Vejo o meu velho carro Debaixo de uma mangueira. Vejo os meus bois comendo Juntinhos numa cocheira.
Faz muito tempo, Seu moço, Nas estradas a rodar, Eu com o meu Carro de bois Viajava sem parar.
Isto é o fim De um tempo que já se foi; Tempo de carreiro E de carro de bois.
Hoje, o presente, Saudade e recordação. Quando vejo um Carro parado, Me corta o coração.” |